19.7.09
11.7.09
4.7.09
Orgulho sadio
O Globo 29-06-2009- segundo caderno - Gente boaOrdem de Choque
escrito por minha filha Fábia, depois da agressão que sofreu nesta quinta-feira 02-07-2009
Na segunda feira passada, saiu uma nota na Coluna gente boa do jornal O Globo, sobre um trabalho que eu desenvolveria durante essa semana pelas ruas da cidade do Rio.
Este trabalho buscava gerar uma reflexão, quebrar o olhar anestesiado da pessoa que anda pela rua, tentando sobreviver, assim como as outras que lhe pedem um trocado. A capacidade de adaptação do ser humano às vezes nos faz aceitar o inaceitável, como passar reto por uma criança que tem fome.
Acredito que isso é parte do nosso instinto de sobrevivência. Está difícil viver, temos mesmo que criar este mecanismo de defesa para acordar e sair de casa, para trabalhar e comer. Não se pode sucumbir à compaixão a cada mendigo que nos pede um troco, se não, rapidamente passaremos para o outro lado, nem que seja pela loucura.
Ás vezes acho que os “loucos” são pessoas que perderam esse mecanismo e vêem o mundo como ele realmente é.
Se a cada confronto com uma situação de injustiça ou desigualdade pararmos para refletir e lutar por ela, não garantimos a nós a nossa sobrevivência. Acho que vem daí esse estado de torpor, vem dessa impotência de ação e do nosso próprio sentimento de abandono pelo sistema que criamos para viver.
Na quinta-feira passada, por volta das 15 horas, eu fazia aplicação do meu trabalho numa rua em Santa Teresa quando fui assaltada por dois garotos jovens com um pequeno canivete, o que irracionalmente me fez pensar que eu teria chance ainda de salvar minha câmera e o registro do meu trabalho que estava dentro, mesmo tendo sempre o discurso e o princípio de nunca reagir a um assalto. Gritei por socorro, tentei me desvencilhar, até que o maior deles me deu um soco no olho, com tamanha força que fraturou um osso da órbita ocular.
Venho aqui apenas dizer que eu acredito na vida e nas tantas boas pessoas que eu conheço. Quando escuto alguém dizer que pensa duas vezes se bota um filho neste mundo cão, eu penso: bota sim, bota muita gente boa e cria bem para que o contingente de gente que constrói aumente, porque quem não tem condição para ter filhos e nem mesmo tinha condição para nascer está parindo muito.
Este trabalho buscava gerar uma reflexão, quebrar o olhar anestesiado da pessoa que anda pela rua, tentando sobreviver, assim como as outras que lhe pedem um trocado. A capacidade de adaptação do ser humano às vezes nos faz aceitar o inaceitável, como passar reto por uma criança que tem fome.
Acredito que isso é parte do nosso instinto de sobrevivência. Está difícil viver, temos mesmo que criar este mecanismo de defesa para acordar e sair de casa, para trabalhar e comer. Não se pode sucumbir à compaixão a cada mendigo que nos pede um troco, se não, rapidamente passaremos para o outro lado, nem que seja pela loucura.
Ás vezes acho que os “loucos” são pessoas que perderam esse mecanismo e vêem o mundo como ele realmente é.
Se a cada confronto com uma situação de injustiça ou desigualdade pararmos para refletir e lutar por ela, não garantimos a nós a nossa sobrevivência. Acho que vem daí esse estado de torpor, vem dessa impotência de ação e do nosso próprio sentimento de abandono pelo sistema que criamos para viver.
Na quinta-feira passada, por volta das 15 horas, eu fazia aplicação do meu trabalho numa rua em Santa Teresa quando fui assaltada por dois garotos jovens com um pequeno canivete, o que irracionalmente me fez pensar que eu teria chance ainda de salvar minha câmera e o registro do meu trabalho que estava dentro, mesmo tendo sempre o discurso e o princípio de nunca reagir a um assalto. Gritei por socorro, tentei me desvencilhar, até que o maior deles me deu um soco no olho, com tamanha força que fraturou um osso da órbita ocular.
Venho aqui apenas dizer que eu acredito na vida e nas tantas boas pessoas que eu conheço. Quando escuto alguém dizer que pensa duas vezes se bota um filho neste mundo cão, eu penso: bota sim, bota muita gente boa e cria bem para que o contingente de gente que constrói aumente, porque quem não tem condição para ter filhos e nem mesmo tinha condição para nascer está parindo muito.
Eu vou comemorar, e não é porque “graças a deus eu estou viva, podia ter sido pior” ou por ser agredida na rua, porque não se pode agradecer, não está certo e não é “ainda bem”. Essa “ordem de choque” que impera não é normal, nem aceitável, e eu não quero me habituar a ela. É preciso se responsabilizar, é preciso que cada um, na sua medida, em cada pequeno ato, faça o que puder.
Vou comemorar cada pessoa boa que engole em seco essa corja e tenta achar e construir beleza neste mundo. Vou comemorar as pessoas que me acolheram em casa no momento da agressão, a pessoa que viu os assaltantes despejando todos os meus documentos na lixeira e se preocupou em me devolver mesmo correndo riscos e toda a rede de pessoas que tenta todos os dias acreditar que vale a pena sair e tentar viver mais um dia. Amanhã, com meu olho roxo, vou chamar meus amigos em casa e brindar, somar memória boa para fazer frente a todas as memórias duras diárias que me invadem, para que no final do meu tempo, quando a minha carne virar terra, a minha grama nasça verde e florida.
Vou comemorar cada pessoa boa que engole em seco essa corja e tenta achar e construir beleza neste mundo. Vou comemorar as pessoas que me acolheram em casa no momento da agressão, a pessoa que viu os assaltantes despejando todos os meus documentos na lixeira e se preocupou em me devolver mesmo correndo riscos e toda a rede de pessoas que tenta todos os dias acreditar que vale a pena sair e tentar viver mais um dia. Amanhã, com meu olho roxo, vou chamar meus amigos em casa e brindar, somar memória boa para fazer frente a todas as memórias duras diárias que me invadem, para que no final do meu tempo, quando a minha carne virar terra, a minha grama nasça verde e florida.
Fábia Schnoor - em 04-07-2009
26.6.09
um mundo mais pobre
*
*
*
Há tristeza hoje em Ideália,
não pela morte.
Desde muito, o moço mora no céu da Ilha.
Saiu do planeta sem violência, sem dias em UTI, cabos e tubos
Íntegro e único como viveu entre nós.
Há tristeza pelo mundo que se torna cada vez mais banal,
cada dia mais pobre e sujo.
O mesmo mundo que sempre julgou sua vida e seus atos sem nada saber,
este mesmo mundo que está cada vez mais vazio de gênios como ele.
Com seus passos leves, com seus pés de nuvem, dança na Lua Michael!
Afinal, estás livre das conjecturas daqueles que se perderam
nas pequenices da aparência
porque não conseguiam alcançar sua grandeza!
25.5.09
à flor da pele
foto de MartiksonAssim se comportam seus demônios. Por vezes, teimam em brotar do fundo, chegando quase ao exterior. Alguns os veem ou pressentem e, quase sempre, tem reações de medo, repulsa e decepção. Sob a pele rósea e as formas doces e curvas, os cabelos bastos e longos principiam a revolução. Sua alma se contorce e se arrepia, as unhas desejam abrir fendas nos músculos, romper a pele a libertar pulsões, há séculos interditadas às mulheres.
E ela roda e se arrebenta em chamas e ao parir a si mesma, resgata o primitivo animal que, alojado nas entranhas, defende-a dos abusos permitidos aos machos desde que perceberam em si mesmos o medo e impotência diante dela - a força geradora.
escrito em 24-05-2009 - para todas as mulheres que sofrem estranhas e dolorosas tensões.
11.4.09
O Outro
pimp20up20maskHendrik KerstensNo blog http://costurandomaria.blogspot.com/ da criativa Ana M - encontrei este post:
harry e sally
"eu não sinto falta dele".
"não?"
"não. eu sinto falta da lembrança dele."
Então me veio a vontade de escrever sobre O Outro - esse Eu que mora em nós sob outras identidades.
Todas as faltas que sentimos, na verdade, são ausências de nós mesmos.
Saudades daquilo que fomos e do que vivemos em alguma época com alguém, um dos muitos outros que nos habitam e que encontramos pela vida afora.
Existem aqueles outros que despertam em nós o melhor que temos e alguns que trazem à tona, de forma detestável, a besta que escondemos ou que desconhecíamos até aquele momento.
Nestes casos, se tivermos pouca maturidade ou pouco conhecimento de nós mesmos, muitas vezes temos necessidade de rasgar fotos, cartas, bilhetes e apagar e-mails, como se assim nos livrássemos daquele personagem que esteve encarnado nas pessoas que um dia amamos e que nos fizeram sair do prumo.
Acontece também alimentarmos lembranças, porque fomos tão belos, felizes e adoráveis na época em que nos relacionamos com nossa capacidade amorosa, bem humorada, sexy e criativa, a partir de alguém.
Mas, será que 'o outro' é sempre uma criação nossa? Creio que sim.
E, mesmo que as pessoas sejam elas mesmas, sentimos atração pelas qualidades que aparentam e nos encantam, que desejamos ter sem saber que já moram em nós, mesmo que em germe.
Talvez o mundo seja um grande espelho e só podemos nos perceber completos ao conviver e aceitar que, como formulou Jung: quando duas pessoas se amam ou discutem, estão ali presentes queiramos ou não, ao menos quatro personalidades: os dois e mais as duas projeções inconscientes que fazem!
Já imaginaram isto em grupo?
Escrito em 11-04- 2009
14.3.09
O desxoval

Quando alguém nasce ou vai à escola, quando viaja, quando se casa ou segue para a vida religiosa ou militar, faz-se um enxoval.
À medida em que preparamos o enxoval dos filhos, devíamos repassar a eles alguma coisa do nosso acervo. Assim estaremos começando o processo do desxoval.
Diz o dicionário que o verbo enxovar significa : pôr, trancafiar em enxovia; prender, encarcerar. E enxovia era o local onde os mouros guardavam o trigo, local escuro e úmido que serve como depósito, e por extensão tornou-se prisão, masmorra na língua portuguesa.
De fato, desde que nascemos, os enxovais nos prendem à terra, à vida material, sem a qual não cresceríamos, mas seria melhor que não fossem prisão ou masmorra. Entretanto, sobre a hora do desxoval não se fala e, portanto, não há no dicionário esta palavra já que o ser humano não aceita bem os desapegos e a morte.
Penso que o dexoval poderia tornar-se uma prática saudável. Fazer o caminho de volta para que se possa voar em paz, sem deixar aos que ficam a solução de nossa libertação.
escrito em 14-03-2009
Anima - pequenas histórias femininas 

