Desde sempre lembro-me viajando em imagens. Primeiro elas fugiram de meu olhar interno e se faziam ver mergulhadas em papel e cores. Depois vieram as palavras e a inspiração dos sonhos, pois foi a realidade que, muitas vezes, trouxe os pesadelos. Em busca de organizar este mundo interior surgiu a Ilha.União de idéias e sonhos, asas que herdei. Apresento-a em pequenos trechos e peço que questionem, perguntem muito para que ela possa tornar-se mais rica e interessante, lugar melhor pra viver.

29.5.06

Eulália e eu

Continuando o conto - Solidão - postado em 14 de abril
para folha de chá.


Eulália e eu

Ainda protegida pelas flores, pensava no que poderia fazer para abordar Eulália quando a porta do elevador se abriu. Só tive tempo para acionar a campainha quando percebi a aproximação do porteiro, inconfundível em seu uniforme azul.

Antes que me perguntasse algo falei: - Boa tarde! Sabe se dona Eulália está em casa? Já toquei e ninguém respondeu.
- Ah! É a senhora! A amiga de escola de D. Eulália! Que bom ter voltado, espere um pouquinho e toque de novo.
Sabe? Ela é sozinha, pode estar ocupada...

Desejando, internamente, que Deus me desse a memória do porteiro, toquei novamente, quase ao mesmo tempo em que a porta se abriu e aquela figura miúda apareceu olhando fixamente as flores como se fossem um fantasma.

Certamente, não devia ser comum em sua vida receber flores nem visitas.
– Boa tarde. Desculpe, mas deve ser engano. Disse Eulália. Não ouvi o interfone.

Seu espanto e indecisão permitiram que uma feliz idéia me ocorresse.

-Não há engano e o senhor porteiro acabou de subir comigo. Vim trazer-lhe estas flores, cortesia do restaurante Caruso por sua fidelidade inestimável! eu disse em tom bastante profissional.

Ela deu um passo atrás, mas ainda ficou reticente... - Pra mim? Fidelidade? Mas... Eu...

Minha mente titubeou. E se ela não fosse freguesa tão assídua assim? Entretanto mantive-me firme e fui entrando atrás das flores.

-Por favor, deixe-me sentar um pouco, elas são lindas, mas pesam um pouquinho e como é perto, vim caminhando... Eu já lhe explico!

Pedindo mil perdões, ela me acomodou numa pequena poltrona no aposento que parecia unir as funções de hall de entrada, sala de visitas, de refeições e fechou a porta.

Pedi que recebesse as flores e as colocasse na água. Assim eu teria um tempo para raciocinar melhor e encontrar argumentos para convencê-la.

Não foi tão difícil quanto eu pensava. Enquanto ela entrou por uma cortina que parecia encobrir uma pequena cozinha, vasculhei com o olhar tudo que havia no aposento que pudesse amparar minhas histórias. Então meus olhos bateram numa antiga fotografia de escola, era Eulália vestida em um garboso uniforme de uma conhecida escola de freiras da cidade. A data na dedicatória era clara e me permitiu calcular sua idade aproximada.

Neste momento, ela retornou à sala trazendo as flores bem arrumadas em dois vasos de louça pintados à mão.
- São muitas flores para um lugar tão pequeno, disse timidamente enquanto pousava um deles sobre a mesa de refeições e entrava em outra porta levando o outro...
Retornando completou,
- Tive que colocar o outro vaso no quarto, mas à noite eu o retiro e coloco na área. Dizem que não faz bem dormir com flores no quarto e sou muito alérgica sabe?
Dizendo isto puxou uma cadeira da mesa e sentou-se à minha frente continuando a falar e a explicar as condições do apartamento onde morava.

Pude reparar que parecia falar pra si mesma e lembrei da solidão em que vivia e do hábito do telefone que, na minha confusão, já tinha quase esquecido.

Aos poucos me pareceu que a ansiedade cedeu e lembrou-se de mim e do motivo de minha visita.

- Desculpe senhora eu estou um pouco confusa, agradeço as flores, mas acho que ainda não entendi a razão deste presente.

- Eu explico, falei. Sou consultora de relações publicas do restaurante que a sra freqüenta. Eu havia sugerido que eles instituíssem um prêmio para os clientes mais antigos e mais constantes como uma forma de agradecimento e manutenção da clientela. Pretendemos sortear vales para refeições como brindes, mas antes achamos melhor fazer um teste, enviando flores para agradecer aqueles que tem nos prestigiado durante estes anos.A senhora foi indicada pelos garçons como a mais constante e fiel e por isto eu vim, pessoalmente, trazer-lhe este buquê.

_ Ah! Muito gentil, mas...(eu já estava gelando diante da possibilidade de novas perguntas quando me ocorreu uma idéia)

_ Sabe Eulália, o mais interessante disto tudo são as coincidências da vida. Eu já havia te visto umas vezes lá no restaurante e achava que conhecia seu rosto de algum lugar... Você estudou no colégio Virgem de Lourdes? Falei, voltando as costas para o retrato como se não o tivesse visto.

Seu rosto se iluminou! Começou a falar sem parar contando sua vinda para o Rio após a morte dos pais. Ainda adolescente tinha vindo para o internato do Colégio porque tinha uma tia que era religiosa da ordem e conseguiu vaga para ela em troca de trabalhos na secretaria.
Esta foi a razão pela qual se especializou em contabilidade o que, mais tarde, veio facilitar sua admissão e carreira no Banco. Como era muito tímida e se sentia diferente das outras meninas cresceu com muita dificuldade para fazer amigos.

Achava que se lembrava de mim, mas... - Como é mesmo seu nome? Perguntou?


Me apresentei e disse que provávelmente não se lembraria de mim.
Contei que eu era um ou dois anos mais nova e embora em classes diferentes, me lembrava bem dela porque uma vez tinha ficado de castigo na secretaria e ficara encantada por ver que uma mocinha, ainda estudando, trabalhava com coisas tão “sérias”. Desde então, confidenciei-lhe, ela passou a ser o foco de minha admiração.

E, pedindo-lhe perdão, disse que tinha inventado a história dos brindes do restaurante como uma forma de entrar em contato com ela. Desde que a reencontrara, desejava que ela me recebesse sem receio e pretendia torná-la minha amiga.

Neste momento percebi que tinha tocado um ponto mágico. Minhas mentiras valeram!

Ela se abriu num sorriso marejado e quis acreditar naquela história que reduzia seu afastamento das pessoas.

Fiquei feliz quando ela passou a me considerar a amiga de infância! Como um poço que vasa, contou-me suas inibições amorosas, falou da solidão e, como a noite já estivesse chegando, combinamos nos ver novamente e jantarmos juntas para comemorar este “reencontro”.

Trocamos nossos números de telefone e ao chegar em casa liguei para Eulália.

Ela custou a atender e deixei recado em sua secretária eletrônica.

Eu sabia que ela estava ali e sei que ela sentiu prazer ao ouvir minha voz, mas não é de um dia para outro que conseguimos mudar nossos hábitos!


Angela Schnoor. Rio de janeiro, em 29 de maio de 2006



18 Comments:

Blogger Folha de Chá said...

Angela, que bom que te lembraste da Eulália. Que ficaste amiga dela e a tornaste um pouco mais feliz. :) De certeza que vão ficar amigas. E nada melhor que trazer um pouco de alegria para a vida de outra pessoa, não é?

Tu a lembrares-te do conto e eu, que ainda não consegui escrever nada para responder ao teu outro post. :) Desculpa...

6:54 AM

 
Blogger greentea said...

a letra está tão miudinha que agoara não consigo ler... volto depois.

beijinhos para ti

11:42 AM

 
Blogger 125_azul said...

Ser feliz, fazer feliz, dá uma trabalheira!, mas vale tanto a pena!!!

2:42 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Sua capacidade para inventar histórias deixa-me sempre deslumbrada.

E quantas Eulálias não há neste mundo, mortinhas porque alguém lhes bata à porta, com flores que tornem as suas vidas menos solitárias e vazias?

Um beijinho.

3:43 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Agradeço mais uma vez os seus conselhos de ontem, em especial o do seu amigo, que eu não conhecia.

Ùltimamente não tenho tido daqueles ataques para esquecer mas, com o calor, basta um pouco mais de esforço para ficar de rastos.

3:47 PM

 
Blogger dora said...

:)
as garrafas verde estiveram lá sim, só por alguns minutos enquanto experimentava um pouco o sabor do dia e se essas imagens se ligavam a ele. Não foi o caso, o Calvin veio muito mais a propósito... Boa que estavas lá enquanto elas pairavam no etéreo céu dos blogs.
Um beijo

7:59 PM

 
Blogger Angela said...

folhinha, graças ao seu bom coração tudo isto passou a acontecer mesmo que na imaginação... Mas os sentimentos são reais! Não se preocupe com a história do post antigo... já passou e a vida anda pra frente! Eu escrevi o conto porque isto me dá prazer e é da minha natureza. Um beijo.

2:59 AM

 
Blogger Angela said...

Greentea,
tem razão! A letra saiu muito pequena mas já consertei. Só não consegui postar o selo pela amazonia mas, já pedi ajuda. Um carinho.

3:01 AM

 
Blogger Angela said...

125 azul,
vale sim, mesmo que seja com mentirinhas boas!

3:02 AM

 
Blogger Angela said...

Meiguinha querida,
Adorei a idéia de nosso encontro voador! Vamos ver como será. Você viaja daí e eu daqui e depois a gente troca as experiências! Eu também fico horrível com o calor! Então, vamos imaginar um tempo bem agradável para voar ok?
Beijos de ursa mãe.

3:06 AM

 
Blogger Angela said...

Dorab,
Que alívio! então não imaginei seu post itinerante, apenas estive no ar com garrafas verdes! Gostei deste encontro! Obrigada por me salvar da camisa de força!:) bj.da angela.

3:10 AM

 
Blogger C_mim said...

Meiguinha e ursamãe, deveriam passar uma temporada nos Açores

http://acores.sapo.pt/turismo/

3:57 AM

 
Anonymous Anônimo said...

Ursa querida, a letra assim fica muito melhor.
Custa menos a ler.

Um dia destes vamos então fazer o nosso vôo.

Beijinhos(gostei de a ver escrever"beijocas", que é um termo usado muito por nós portugueses).

4:24 AM

 
Anonymous Anônimo said...

Queria dizer,

"muito usado por nós".

Realmente a nossa língua é mesmo difícil.

Beijinhos.

1:24 PM

 
Blogger Angela said...

C_mim, fui ver o site das ilhas mas lá não dizem da temperatura do local! Praias e ilhas costumam ser mais frescas pois tem vento do mar, assim é ideália! Sabes me dizer da temperatura dos açores?

11:33 PM

 
Blogger Angela said...

Meiguinha, eu uso muito este termo: beijocas e até já postei outras vezes mas, simplificando assim: bjk.
(usando o K em lugar de C).Não sabia que aí também era usado!
então muitas bjks!

11:36 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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