Anima - pequenas histórias femininas 12
Na maioria das mulheres as cicatrizes se encontram na alma
Conto 12
O CASACO
O CASACO
Durante toda a vida lembrava de ter sido forte.
Na infância, nas poucas vezes em que estivera doente a mãe se desvelava em tantos cuidados que mais lhe pareciam um aprisionar.
Gostava de sentir-se amada mas, aquilo era tão sufocante para seu temperamento impulsivo e independente que preferia estar junto ao pai que a tratava como igual e em cuja companhia sempre aprendia algo sobre a vida e as pessoas.
Cresceu se destacando dos irmãos pela semelhança com o pai. Às vezes brigavam, quando ele tentava exercer sua autoridade, mas logo desistia. Ela era, realmente, impossível!
Sua vida profissional desenvolveu-se rapidamente. Gostava de estar entre os homens e tinha certa complacência arrogante para com as mulheres, o que gerava mútua antipatia.
Por isto, tinha raríssimas amigas pois a maioria não a entendia e a via como rival.
Acabou casando e tendo filhos mas o marido, aos poucos, foi se mostrando dependente e inseguro. Apaixonado por ela, fazia tudo para agradá-la e, muitas vezes, tomava atitudes como as da mãe: sufocantes, fragilizantes e sem a menor percepção de suas reais necessidades.
Criou uma imagem tão forte para si mesma que ninguém percebia sua carência afetiva, escondida atrás do medo de se tornar frágil e dependente. Como gostaria de ser amada por alguém que não se intimidasse com ela! Queria que percebessem a sua ternura e feminilidade sem se aproveitar para dominá-la e engolfá-la. Desejava ardentemente que alguém olhasse para ela e realmente, a visse!
A vida conjugal foi sendo levada. Não havia brigas e o sexo, quando havia, era quase frio. Não fosse a amizade que tinha pelo marido, que era um bom pai e sempre estava ali, presente, há muito já teria se separado...
Trabalhava arduamente para sustentar a família pois o marido gastava muito e não ganhava tanto quanto ela.
A gerência da fábrica era sua vida. No meio dos operários se sentia em casa e o faturamento estava sempre em alta, fruto de suas decisões práticas, racionais e experientes. Era também muito humana e generosa conseguindo uma popularidade invejável entre os funcionários.
A fábrica crescia e abriu um campo para assessores. Novas admissões foram feitas e ela marcou uma primeira grande reunião tendo em vista a abertura de nova linha de produção.
Naquele dia, não acordou bem disposta, parecia que uma gripe se aproximava...
-"logo hoje! Tanto trabalho pela frente, sem hora para terminar o dia, e esse cansaço! "
A reunião se prolongava, o ar condicionado estava muito forte e, sem perceber, começou a se encolher de frio. Subitamente, um casaco lhe é colocado sobre os ombros.
Levanta a cabeça e seu olhar encontra o sorriso da loura alta e bela que conseguiu vê-la transparente!
Seu coração bateu descompassado e, como mágica, o amor desejado nasceu sob o aconchego do casaco de couro daquela mulher que a compreendia!
©Copyright ANGELA SCHNOOR
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4 Comments:
Meia lua, inteira...
4:03 AM
Será que era por isto que ela esperou toda a sua vida?
Estou um pouco confusa.
Beijinho.
9:17 AM
Melguinha, o que ela esperou toda a vida foi pela oportunidade de encontrar alguém com quem se sentisse à vontade para viver sua necessidade de ser frágil.
É claro que as parcerias da vida são como uma dança à moda antiga: Se não deixarmos o outro nos guiar,só buscaremos quem quer ser guiado e vamos continuar a reclamar que não temos quem tome iniciativa.
Neste caso, não só ela começou a aceitar ser receptiva como a confiar e, por causa de sua história com os homens e as mulheres, ficou mais fácil confiar em alguém "tipo sua mãe mas com um componente masculino".
6:48 PM
Agora entendi melhor.
Obrigada.
6:56 PM
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