Desde sempre lembro-me viajando em imagens. Primeiro elas fugiram de meu olhar interno e se faziam ver mergulhadas em papel e cores. Depois vieram as palavras e a inspiração dos sonhos, pois foi a realidade que, muitas vezes, trouxe os pesadelos. Em busca de organizar este mundo interior surgiu a Ilha.União de idéias e sonhos, asas que herdei. Apresento-a em pequenos trechos e peço que questionem, perguntem muito para que ela possa tornar-se mais rica e interessante, lugar melhor pra viver.

28.1.13

Na torre de Jung




Carl Jung pumping water in the Tower at Bollingen, ca. 1960. Bollingen Foundation Collection


Transcrevo aqui este artigo por identificar, nas palavras do autor, alguém que, a meu ver, percebeu de modo fiel o espírito de Carl Gustav Jung.


Na torre de Jung



Eustáquio Gomes


Perturbado por uma série de sonhos em que entram talibãs e índias quíchuas, fui procurar Carl Gustav Jung, o discípulo rebelado de Freud. Passa parte do ano numa torre que mandou construir à margem de um lago de Zurique, no meio da floresta, e foi que o encontrei. A torre tem aspecto medieval. Nãoluz elétrica nem telefone. O próprio Jung tira água do poço, racha lenha e cozinha. Tem 86 anos e vai morrer em breve, mas logo fica claro que para ele isso será como um mergulho no mito, e talvez não o último.


Por que veio morar aqui


Aqui vivo em harmonia com a natureza. Os trabalhos simples tornam o homem simples, e é muito difícil ser simplesAlém disso, idéias emergem, do fundo dos séculos,  antecipando  portanto um futuro longínquo. Aqui criação e jogo se aproximam.


Perguntei lhe por que os sonhos eram tão importantes para ele. Respondeu: 


— Os sonhos são como a lava ardente e líquida a partir da qual se cristaliza a rocha que se deve talhar.


— O senhor é um cientista ou um cultor de mitos?


Certo dia, escrevendo a respeito de minhas fantasias, perguntei a mim mesmo: "Mas afinal o que estou fazendo? Certamente tudo isso nada tem a ver com ciência. Então do que se trata?" Uma voz em mim disse: "O que fazes é arte".


Toquei no assunto que marcou sua biografia:


— Foi isso que o separou de Freud?


— Tenho ainda uma viva lembrança de Freud me dizendo: "Meu caro Jung, prometa me nunca abandonar a teoria sexual. Devemos fazer dela um dogma, um baluarte inabalável. Um tanto espantado, perguntei lhe: "Um baluarte contra o quê?" Ele respondeu: "Contra a onda de lodo do... ocultismo".


Como o senhor reagiu?


Não pude concordar, é claro. Esse choque feriu o cerne de nossa amizade. Freud parecia entender por "ocultismo" tudo o que a filosofia e a religião, assim como a parapsicologia nascente, diziam da alma.


Em suma, a luta do mito contra a razão.


— A razão nos impõe limites muito estreitos e apenas nos convida a viver o conhecido, como se conhecêssemos a verdadeira extensão da vida. Na realidade, nossa vida ultrapassa em muito os limites de nossa consciência e, sem que saibamos, a vida do inconsciente acompanha nossa existência. Quanto maior for o domínio da razão crítica, tanto mais nossa vida se empobrecerá. E quanto mais formos aptos a tornar consciente o que é mito, tanto maior será a quantidade de vida que integraremos.


Quis saber quando exatamente ele havia tomado consciência disso.


— Foi no início da segunda metade de minha vida que comecei o meu confronto com o inconsciente, respondeu. Foi um trabalho que se estendeu por longos anos e depois de mais ou menos vinte anos cheguei a compreender em linhas gerais os conteúdos de minhas fantasias.


— Há vida após a morte?


Toda vida aspira à eternidade.  O homem deve provar que fez o possível para formar uma concepção ou uma imagem da vida após a morte, ainda que seus esforços sejam confissão de impotência. Quem não o fez, sofreu uma perda.


Por que uma perda?


Porque a instância interrogativa que fala nele é uma herança muito antiga da humanidade, um arquétipo.


Por fim, uma pergunta síntese:


Que balanço o senhor faz de sua vida?
 Não se fez de rogado, embora tivesse todo o direito de mandar me às favas:


— Sinto me espantado, decepcionado e satisfeito comigo. Sinto me triste, acabrunhado, entusiasta. Sou tudo isso e não posso chegar a uma soma, a um resultado final. Não tenho mesmo, para dizer a verdade, nenhuma convicção definitiva a respeito do que quer que seja. Sei apenas que nasci e que existo.


O fogo da lareira estava baixando, mas o braseiro crepitava e chiava. Jung foi fora e voltou com três pequenas achas de madeira. Esperei que o fogo voltasse a subir e despedi me dele. À saída, deu me de presente um lindo livro autobiográficoMemórias, Sonhos, Reflexõesque desde então é um de meus livros de cabeceira; e de onde, como quem colhe pequenas pepitas num rio largo, extraí a fantasia dessa entrevista com o velho e doce Jung. 



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